O que podemos aprender com a cultura ciclista de Amsterdã

Amsterdã tem pouco mais de 800 mil habitantes. Desses, mais da metade usa a bicicleta diariamente para se locomover entre os mais de 500km de ciclovia, espalhados pelos 219km² da cidade, que é conhecida por ser o paraíso dos ciclistas. Afinal, as ruas são totalmente adaptadas para o tráfego sobre duas rodas, com corredores compartilhados, postos de aluguel e de guarda e até mesmo sinalização especial voltada aos pilotos das “magrelas”.

Além disso, a segurança é um dos principais diferenciais da capital holandesa em relação aos demais países, já que lá, o medo urbano associado ao ciclismo é praticamente inexistente. No entanto, apesar de o mundo todo conhecer a cultura ciclista de Amsterdã, poucas pessoas realmente sabem como essa “onda” surgiu. E caso você também não saiba, nós explicamos agora!

Até os nazistas têm a ver com essa história!

Por ser plana, compacta e com um clima ameno, Amsterdã reúne fatores geográficos e climáticos que favorecem a adaptação desse meio de transporte por parte dos cidadãos. Já historicamente, de acordo com o livro In the City of Bikes: The Story of the Amsterdam Cyclist, do americano Pete Jordan, as bicicletas tiveram um papel importante na resistência contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Isso porque os holandeses usavam as bikes propositalmente para impedir a passagem de veículos e tropas alemãs pelas ruas.

Anos depois, já na década de 70, apesar de o foco dos investimentos estarem voltados à infraestrutura para bikes, a cidade acompanhou a tendência europeia da época e passou a ser ocupada por muitos carros. Consequentemente, passou a sofreu com o número alarmante de acidentes. Em 1971, mais de 3 mil pessoas morreram no trânsito, e cerca de 500 eram crianças. A população, então, foi às ruas manifestar contra a desumanização da cidade, que parecia melhor preparada para servir aos carros em vez das pessoas.

Uma campanha chamada “Stop Kindermoord” (algo como “Pare o assassinato de crianças”) ganhou força em todo o país, pressionando o governo a incentivar o uso de bicicletas e a desenvolver leis que protegessem os ciclistas. Tais acontecimentos foram imprescindíveis para a construção da “capital mundial das bikes”, como Amsterdã é conhecida atualmente.

E no Brasil?

Por mais tímidos que sejam, São Paulo já deu os primeiros passos para, quem sabe um dia, também ser reconhecida como uma cidade “amiga” dos ciclistas. Segundo a Prefeitura da capital, mais de 500 mil pessoas andam de bicicleta pelas ruas paulistas para fazer trajetos diários – e 53% delas pedalam pelo menos uma vez por semana.

Apesar de otimistas, os números ainda são baixos, se levarmos em conta que só a cidade de São Paulo tem mais de 12 milhões de pessoas. Também não podemos ignorar os problemas estruturais, governamentais, administrativos e políticos que envolvem a consolidação da bicicleta como um meio de transporte efetivo, que esteja integrado a outros modais.

Ações, campanhas e leis de incentivo são muito bem-vindas nesse contexto, que comprovadamente tem o poder de mudar a qualidade de vida das pessoas – seja em relação à saúde, ao bem-estar ou até mesmo financeiramente. Mas, se podemos tirar alguma lição de Amsterdã, é que são precisos, sim, investimentos em infraestrutura e, mais do que isso, é preciso que a população se una em prol de objetivos em comum para, a partir daí, tornar possíveis mudanças que transformem a mobilidade, sobretudo no que diz respeito à infraestrutura e à segurança, para que cada vez mais pessoas possam usar a bicicleta para ir e vir.

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