Mobilidade sob a perspectiva feminina: as cidades falam a língua das mulheres?

Em minha época de faculdade, um professor sempre dizia: “a cidade fala com os seus moradores.” Naquela época, cabia a cada um dos alunos entender o significado dessa frase que, com o passar dos anos, se faz mais relevante do que nunca. Isso porque, atualmente, as cidades estão passando por diversas mudanças no que diz respeito à forma com a qual a urbanização evolui e, sobretudo, à forma com a qual as pessoas se movem.

Nesse contexto, me pergunto: o município não seria, então, um poliglota, uma vez que dialoga de maneira diferente com cada indivíduo? Por sua vez, o trânsito desse município tem a mesma “prosa”, ou seja, se expressa igualmente com homens e mulheres? E mais: como anda esse diálogo entre mobilidade urbana e gênero, considerando as particularidades femininas, como maternidade, por exemplo?

Não é preciso refletir muito para responder a essas questões. Afinal, fazendo uma breve análise sobre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres em nossa sociedade, é possível concluir que “o papo” proposto pela mobilidade soa muito mais simples aos homens, tanto no que diz respeito à segurança no ir e vir como no que abrange a estrutura dos modais utilizados para tal.

O cenário deveria ser diferente, visto que as mulheres são maioria nas ruas¹. No transporte coletivo, elas representam 74,6% dos usuários de ônibus e 62,5% das pessoas andam a pé. Além disso, sabemos que milhares de mães (muitas delas, solteiras) não têm outra alternativa a não ser recorrer ao transporte público para levar e buscar seus filhos na escola.

Os desafios enfrentados

Para a engenheira Haydée Sva, autora da tese “Evolução dos padrões de deslocamento na região metropolitana de São Paulo: a necessidade de uma análise de gênero”, as atividades de estudo e de trabalho são os principais motivos do deslocamento feminino. Ainda nesse contexto, grande parte das mulheres acaba assumindo as tarefas domésticas e as rotinas de levar os filhos à escola, à creche e ao médico, por exemplo, tendo ainda que cumprir atividades rotineiras como ir ao mercado e à farmácia.

Os obstáculos começam ao sair de casa: calçadas estreitas, esburacadas e/ou escorregadias dão caminho a desníveis e semáforos por muitas vezes quebrados, além de postes e árvores que impedem a passagem – evidenciando a má conservação e a falta de padronização da organização da cidade. Com um pouco de imaginação, é fácil perceber o quanto todos esses desafios dificultam a locomoção de qualquer pessoa, sobretudo a de mulheres que andam empurrando um carrinho de bebê ou conduzindo crianças, aumentando, assim, os riscos de acidentes.

Iluminação pública é outro fator preponderante quando relacionamos gênero e mobilidade. Ruas, praças, becos ou paradas de ônibus escuras tornam as mulheres potenciais alvos de violência, principalmente em uma sociedade machista como a nossa, que infelizmente comete, todos os dias, crimes de gênero. Lugares e horários que por falta de infraestrutura são considerados inseguros pela perspectiva feminina se transformam em verdadeiros limitadores espaciais. Frente a isso, muitas mulheres se veem obrigadas a escolher entre assumir o risco ou limitar-se, ou seja, duas opções inaceitáveis.

Isso tudo sem falar, é claro, do desrespeito ao corpo feminino praticado no transporte coletivo. Em 2017, os casos de abuso sexual cresceram 35% apenas na cidade de São Paulo. Inclusive, na capital paulista, estima-se que uma entre quatro mulheres sofre assédio dentro do ônibus, trem ou metrô.

Além da vulnerabilidade a esse tipo de situação, muitas mulheres também são obrigadas a conviver com a má vontade – manifestada pela famosa “cara feia” ou o famoso “sono repentino”) de quem ocupa, sem direito, os bancos prioritários às gestantes.

O caminho da mudança

Para Janaina Jardim, agente de planejamento da Secretaria do Estado de Mobilidade de Brasília (SEMOB) e mãe do Davi e da Julia, políticas que forçam a segregação, como a criação de vagões exclusivos para mulheres, por exemplo, são um paliativo necessário, mas não resolvem os problemas de forma definitiva.

“Tenho amigas que saem de casa com a ‘sacolinha do ônibus’, na qual levam uma muda de roupa para usar antes de entrar no transporte público. Altura do salto, comprimento do vestido, decote da blusinha… Tudo isso é levado em consideração por elas, enquanto passageiras, para poder fazer uma viagem com segurança”, afirma.

Para atingirmos igualdade de direitos, respeito e melhores condições no ir e vir para as mulheres, Janaina defende um caminho em direção à equidade e ao engajamento das mesmas. “A mobilidade é multidisciplinar. Por isso, só avançaremos nas resoluções desses cenários quando mais mulheres participarem de forma intensa na tomada de decisões e execuções dessas políticas”, ressalta.

Cidades com mobilidade sustentável estão intrinsecamente ligadas ao tema, e políticas de planejamento urbano só farão sentido quando adotarem diferentes padrões e combinações de deslocamento com foco nas mulheres e em suas necessidades, direitos e considerações de gênero, que devem ser inclusos no planejamento do espaço urbano e nos processos que constroem um diálogo bilateral entre as partes envolvidas.

Precisamos, urgentemente, “ensinar” as cidades a conversarem em alto, claro e bom som com as dinâmicas femininas. O salto de qualidade de vida da sociedade percorre a necessária evolução do conceito de mobilidade urbana para o de mobilidade humana, colocando o ser humano e suas demandas no centro das discussões. Só assim criaremos ambientes mais adequados e seguros a todos.

Texto: Antonio Prata Neto e Isabella Delbucio

¹ Estudo da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de São Paulo, feito a partir de dados da pesquisa Origem e Destino de 2012 do Metrô de São Paulo

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